sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008

Semelhanças, heranças, etc

As vezes quando me olho no espelho, vejo nele sua imagem refletida. Seu rosto, na forma em que me lembro, quando eu tinha uns doze, treze anos e ela deveria ter a idade que eu tenho hoje. Me pego fazendo gestos tais quais ela fazia, ou usando uma expressão tipicamente sua. Acho que são coisas que a gente guarda bem lá no fundo, no inconsciente, e termina repetindo um dia, quando menos esperamos. Coisas que herdamos de mãe. Me vejo repetindo minha mãe, sempre. Até em coisas que eu odiava. A gente é filha de nossas mães por um bom tempo...O tempo que dura nossas vidas. Aprende tantas coisas com elas, suas manhas, suas manias, suas qualidades, suas bravuras e bravatas. De repente os papéis são invertidos e a gente vira meio que mãe de nossa mãe. Ela já está velha, cansada, precisando de nossos cuidados. O tempo passou e nós nem nos demos conta. Parece que foi ontem, que estávamos levando aquela surra ou aninhada em seus braços chorando de dor de ouvido ou ouvindo uma bela estória. Parece que foi ontem que estávamos pensando num jeito de fazer o que mais queríamos, que era cortar o cordão umbilical e sairmos pro mundo, sem nenhuma mãe por perto pra nos colocar rédeas curtas.
Hoje quando vejo minha mãe de cabeça branquinha, com aquele sorriso no rosto... Penso, em como a velhice adoça certas pessoas, em como a velhice lhes dá tolerância mesmo com toda impaciência peculiar da idade. A velhice é paradoxal e surpreendente. E quando se chega a ela com dignidade e cercada de amor... É muito mais leve!
Saudades de minha mãe de ontem, aquela que vejo refletida no espelho, quando olho pra mim mesma.
Feliz com minha mãe, agora meio filha, de hoje. Tão doce, compreensiva... Adoro quando ela alisa minhas mãos, meus braços... E sorri pra mim. Ou quando canta uma daquelas cantigas bem antigas e ingênuas... "Lá vem a Rita toda bonita... De braço dado com seu namorado. Fala baixo... Fala baixo... lá lá lá lá vem o delegaaaado"...

quinta-feira, 27 de dezembro de 2007

Que saudade daquelas ávores...

Na primeira semana de dezembro começava aquele rebuliço. Era o momento de sair de carro pelos arredores da cidade, as vezes íamos até meio longe... Pra buscar um galho de árvore seco, que seria nossa árvore de natal. A escolha era bem feita e cuidadosa. Tinha que ser um galho com um design legal. Várias famílias da minha rua, faziam isso, e a meninada adorava esse ritual. Depois da "colheita" do galho seco, era a hora de limpa-lo bem limpinho, pra tirar todas as cascas e excessos. Então começávamos a enrolar os galhos com algodão. E haja algodão! Era pra parecer neve, mesmo! Depois colocávamos as bolas coloridas, vindas de outros natais... Mas sempre tinha uns acessórios novos, pra tapear a criançada e compensar algumas bolas que sempre quebravam durante a exposição da árvore, que ia até o dia de Santo Reis. Todo esse ritual era tão mágico! Dava uma emoção... Desde abrir a caixa com as velhas conhecidas bolas coloridas, até enrolar os galhos com o mesmo algodão já amarelado pelo tempo, e mais uma vez pra tapear, misturava-se um pacotinho de algodão novinho em folha...
O natal tinha um cheiro diferente, um gosto especial. A ansiedade que tomava nosso corpo era outra. O corre corre daqueles dias tinha um movimento leve, e o relógio do tempo corria em outro compasso. Apesar de nem usarmos a expressão reciclagem, tudo era feito dentro dessa proposta. Consumo sustentável! Éramos ecológicos e nem sabíamos. Além da árvore de galhos secos, algodão e bolas reaproveitáveis... Haviam os arranjos natalinos, feitos com "canoa" de coqueiro e os cachos de coquinhos pequenos que caiam naturalmente dos pés de côco. Juntava-se tudo isso e com uma demão de tinta prateada ou dourada, estava pronto o arranjo mais lindo que nós já havíamos visto em toda nossa vida.
Como era simples e belo o natal daqueles tempos, como eram belos nossos olhos e puros nossos corações. Depois... Só tive natais assim, quando nasceram meus filhos e até enquanto eles eram cianças.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2007

Pessoas...


Indivíduos, individualidades, criaturas humanas... Cada uma em sua forma: Pessoal e única. Intransferível, exclusiva! Cada uma carregando um mundo em si, e cada uma carregando em si tudo o que todas as outras contém, e tudo que contém no universo. E cada uma carregando em si, elementos, sentimentos, fragmentos, memórias...
O que somos afinal? Além de passageiros efêmeros por aqui? Ou personagens dessa história que não sabemos como vai ser o final? Nem mesmo com toda nossa perspicácia...
Perpetuaremos para sempre, em diversas formas de vida? Ou voltaremos ao pó e pronto! Quais serão nossas perspectivas? Ressurreição! Reencarnação? ou nada? Ou outra alternativa que nem cogitamos? Ou nem estamos aqui, tudo não passa de minha imaginação? Ou de um delírio coletivo?
Sei lá... São tantas as perguntas que nos afligem, são inúmeras as respostas que não temos.
Mas por enquanto vamos considerar um fato consumado, estamos todos no mesmo barco, somos todos iguais, iguais! Mudam as circustâncias, as aparências, as configurações, uma série de coisas... Enfim... Somos todos pessoas, vindas do mesmo canto, do mesmo sopro.
Nos aceitar como somos e aceitar o outro em toda sua plenitude, torna mais leve nosso caminhar.
Perceber nas fraquezas do outro nossas próprias fraquezas nos permite ser mais tolerantes. E constatar que qualquer sentimento, grande ou rasteiro , bonito ou feio, está lá, na essência de cada um de nós. Ainda que não aflore, está lá! Isso também nos torna iguais. Somos parte da mesma sinfonia. Somos frutos da mesma árvore! Não podemos nos esquecer disso... Senão pra nos envaidecer, pelo menos pra frear nossa arrogância...

quarta-feira, 28 de novembro de 2007

E nós pra onde vamos?


E nós pra onde vamos? Qual será nosso futuro? O que estamos a fazer com o presente? Além de bater a cara contra o muro, ou de derrubar muros e construir outros, ou de derrubar as últimas florestas que nos restam, infestar os rios com latas de sardinhas, viver amontoados sobre o lixo que produzimos todo dia, bufando a fumaça do nosso super desenvolvimento tecnológico, enchendo a pança com os líquidos gasosos e as gosmas coloridas e perfumadas, e os embutidos e os empacotados, artificialmente aromatizados, que fabricamos incessantemente. E depois nos jogamos num american flex com um magic control na mão e assistimos aos lixos enlatados que hollywood gentilmente nos concede? Boa merda!
Mas o fato é que se alguma coisa urgente não acontecer... Se o mundo não der uma guinada, se não houver uma tomada de consciencia coletiva... Estaremos todos fudidos. Na verdade muitos já estão. Muitos... mais do que nós possamos imaginar. Do conforto dos nossos duplex's, encostados nas nossas almofadas indianas, meditando sobre o Bhagavad-Gita... A hora é de acordar, despertar! Já não temos tanto tempo mais. E pra onde vamos depois?

( Foto de Sebastião Salgado)

quarta-feira, 21 de novembro de 2007

Eu tenho medo.


Eu tenho medo da morte, da solidão, da dor... De adoecer de repente de uma doença sem cura. Tenho medo do perigo, do amor, de viajar de avião, de assalto à mão armada, de me cortar com gilete, de pisar num prego enferrujado, de ser mordida de cobra, de tomar caldo de cana envenenado. Eu tenho medo de tudo! De cruzar avenidas movimentadas, de bala perdida, de sequestro relâmpago, de trovoadas. De me perder em Nova York sem saber falar inglês!
Tenho medo de injeção, de anestesia, de mar revolto, de correnteza, de manchas de pele. Tenho medo de perder o cabelo, de ficar com insônia, de ter pesadelo. Tenho medo do escuro, do futuro do planeta, de assombração, de carro que vem correndo na contramão.
Tenho medo de gente má, de gente morta, de pisar em despacho, de encruzilhada, de sandália virada, de bola na cara andando na praia, de cair um côco em minha cabeça. Tenho medo da fome, da velhice e do medo. Mas não faço corpo mole, nem tiro o meu time de campo. Dou minha cara a tapa, dou meu pescoço a forca, mas não fujo da raia! Posso ir à nocaute mas não me dou por vencida. Não abandono o ringue, jamais! Quanto mais tenho medo mas tenho coragem. Enfrento qualquer dragão com a minha espada de São Jorge. Meu amuleto é a fé. Meu caminho é o do meio, minha estrela é do oriente! O Meu pai é Oxalá! Meu Rei venha me valer! Deus é Mais!

quarta-feira, 14 de novembro de 2007

Fluxo...Refluxo...


Eu sou apenas alguém que as vezes é enorme e como o poeta contém multidões...
Outras vezes é nada, ínfimo! o último dos mortais. Carregando castigo e culpa.
Outras raras vezes é Infinito, Supremo, Profusão, abundância... Transcendência.
Normalmente... Por aí, tropeçando, sofrendo, sendo até feliz. Fragmentando-se todo dia,
no fluxo delicioso da vida e todas as suas configurações designadas pela ordem do universo.
E sigo meu caminho, enrolando um lindo echarp na cabeça, com uma sandália leve nos pés...
E o chão se faz estrada pra mim!

sábado, 10 de novembro de 2007

Você faz suas escolhas...


Mesmo quando acreditamos que não temos escolhas... Elas estão aí. Podem não ser aquelas que gostaríamos, podem não ser as melhores escolhas. Podem não ser plurais, não ser perfeitas, ideais... Podem até ser catastróficas! Mas sempre temos uma escolha. Essa nos é concedida pelo universo.
Ou vou ou fico, ou ando ou paro, ou paro ou corro, devagar ou depressa, sorrindo ou chorando ou brincando. Começo? Termino? Aceito? Sim ou não? Mergulho de cabeça ou caio fora?
Mesmo se ficar o bicho pega se correr o bicho come... Existe uma escolha. Fudida ou não!
Muitas vezes não damos a mínima bola pras escolhas, outras vezes passamos a bola pra outros, que terminam escolhendo por nós. Outras vezes demoramos tanto pra fazer uma escolha... Até pra escolher o sabor de um suco ou uma camiseta pra vestir.
As escolhas que fazemos são reflexos do que somos, e vice-versa. Muitas escolhas vão marcar nossas vidas pra sempre. Outras, vão ficar penduradas na parede do nosso imaginário, com uma legenda ao lado: Por que não fiz a outra escolha?
Mas as escolhas são assim mesmo. Pra se errar ou acertar. O que tá valendo é a coragem de faze-las, e procurar faze-las da melhor maneira possível. Com medo ou sem medo, não importa.
Eu prefiro as escolhas do coração. Há quem prefira as escolhas da razão.
Eu quero escolher sempre. Meus sonhos e delírios, versos, prosas, meus amigos e amores, meus livros, discos e filmes e perfumes. Meus caminhos a percorrer, meus trabalhos e projetos de vida, viagens... Viagens.
E quando eu não tiver escolha nenhuma... Eu saberei, que no fundo, lá no fundo, eu tenho uma escolha. Livre arbítrio é um presente do universo. Pessoal, intransferível! Ninguém pode tomar.