domingo, 5 de novembro de 2017

Uma forma de oração

No criado-mudo estão
empilhados meus silêncios.
Na beira do lago, no espelho.
no varal de roupas, na sala vazia...
na grande mesa da cozinha, bem lá,
onde costuro sonhos, remendo coisas,
tempero e bordo a vida, onde corto
tecidos, pulsos, cebolas... e lacrimejo
os olhos vermelhos que já não querem
ver esse mundo tão sombrio, tão cinza.
Meus silêncios se espalham, se espelham,
ecoam e ressoam no canto dos pássaros,
no zumbido dos insetos, na água que cai,
nos movimentos das carpas, dos corpos,
nas farpas, nas marcas, nas dores, nos risos,
nos choros, nas cores, nas linhas, no tempo...
aqui dentro de mim, é onde estão meus silêncios!

terça-feira, 8 de agosto de 2017

A bela Jade e o velho Cajueiro

Ela foi chegando meio tímida... no primeiro ano nem floriu. Depois veio o tempo das chuvas, e de uma hora pra outra era exuberância pura. Na força da lua a bela Jade seduziu completamente o velho Cajueiro. Enroscou seus caules floridos de trepadeira vigorosa, naqueles galhos enrugados, apertou fortemente seu tronco, que estava ali, plantado há décadas e reinando solitário naquele pedaço de quintal. A bela Jade não se importou com nada, nem com o balanço que vivia pendurado no tronco do velho, nem com os ninhos dos pássaros que aproveitavam aquela sombra, nem com os micos que porventura encontravam alguma castanha perdida, ou algum caju maduro e doce, e brincavam pulando de galho em galho... A Jade queria apenas ser bela e crescer livre em busca do sol. Era de um vermelho que nem parece existir, de tão bonito, de tão retinto... Com aquelas flores de forma estranhamente sexy. O velho Cajueiro sucumbiu ao seu vigor. Seu tronco está partido ao meio, e a bela Jade tomou posse de tudo. Até que caiam todas as sua flores, até que suas folhas sequem... Talvez brote um novo cajueiro. Não sei!

domingo, 25 de dezembro de 2016

Presenças, presas...

Presentes!  Eles podem ser caros e imponentes, como também sutis, simples, simplórios, mas  transformadores e preciosos...
Aquela mochila vagabunda e barata que te instiga à primeira viagem de carona, ou uma carteira comprada no camelô mas ofertada com tanto  amor e desejos bons, que acaba abrigando um passaporte rumo ao mundo. Um livro encardido que muda sua vida, um caderninho de capa bonita que inspira seus primeiros poemas, um incenso que te desperta o tao, um japa mala que te leva a Deus. Talvez você nem se toque, mas são tantos os toques que vêm do universo... Um verso com seu nome de um poeta amigo seu, uma flor cuja semente floresceu no seu jardim, uma muda de jasmim que enche de perfume sua casa, e um par de asas que sua mãe lhe deu... São tantas "prezas" simples, que enredam nossa vida nas teias do amor. Coisas que aparentam pouco valor, mas que saem do bolso da alma, e muitas vezes passam tão desapercebidas. E aquele presente feito pelas mãos de quem nos dá... Com tanto amor e energia, quase um patuá! Presentes ofertados de coração, é como amigo sincero, coisas pra se guardar... E não tem hora nem data nem tempo, presente é presença, é lembrança, é uma aliança entre o que recebe e o que dá... 

terça-feira, 18 de outubro de 2016

A mala

Quando viajamos pela primeira vez, normalmente carregamos uma mala grande, cheia de roupas para diversas ocasiões, alguns calçados para escolher em que momento usa-los, casacos só para prevenir, mesmo quando o lugar que vamos visitar esteja em pleno verão e apenas um xale ou um moletom resolveria. Necessaire cheia de produtos que muitas vezes derramam e melam toda a bagagem, e mais uma infinidade de coisas que achamos que serão indispensáveis... Na segunda viagem já aprendemos alguma lição. Da terceira em diante ficamos experts! Levamos apenas o essencial.
Na vida às vezes também é assim. Levamos uma mala pesada e cheia de mágoas, complexos, traumas, medos, sentimentos de rejeição, frases entaladas que nunca tivemos coragem ou oportunidade de pronunciar, rancores e afins Mas vamos amadurecendo e esvaziando a mala. Jogando no lixo da existência essas coisas que tornam pesada nossa bagagem e consequentemente atrapalham nossa viagem. Vamos priorizando afetos, amores, harmonia, alegrias e jogando fora os basculhos.

perdão

Todos nós temos um lado sombrio, outro iluminado... Somos os dois lados da mesma moeda. Alegria e tristeza, amor e ódio, erros e acertos, saúde e doença, fé e descrença, dúvidas e certezas, verdade e mentira, tempestade e calmaria... Yin e Yang! A grande alquimia é dosar os ingredientes para não estragar a receita. É não permitir que o fel contamine tudo, é estar atento e forte. É uma questão de manter "a mente quieta, a espinha ereta e o coração tranquilo"... Sei que não é fácil, é uma batalha do dia à dia. Eu não me eximo dos meus vacilos. Eles são tantos... Mas alimentar mágoas, gosto não! Uma reflexão antes de dormir vale muito a pena, especialmente pra gente perceber nossos próprios defeitos e não ficar colocando nos ombros dos outros culpas que também são nossas, ou culpas que nem sequer existem... Pedir perdão também é tão bom... Então, perdão, para quem está magoado comigo.

domingo, 16 de outubro de 2016

Espírito de pobre

Um dia uma pessoa me disse que eu tinha "espírito de pobre"... Eu lhe disse que por um lado eu sempre fui uma pessoa muito, muito rica. Tive sempre os maiores e mais bonitos quintais do mundo, por exemplo, o Recôncavo Baiano e seus campos de cogumelos, a imensidão do Tapajós, a prainha do pau rosa, as dunas do Maranhão... Me banhei nos mais belos rios que se pode imaginar, e sob a cabeça teto de estrelas... Vivi nos tronos do mundo, sempre fui rica, graças a Deus! Mas por outro lado sigo a risca a ideia de ganhar o pão com o suor do rosto, e sempre vou estar com um martelo (e uma foice, rsrsr) nas mãos, ou uma faca, ou uma tesoura, ou uma enxada, uma caneta ou um pincel, e rodeada de gente que como eu, trabalha... pano na cabeça, unhas sujas, cheirando a suor, tomando café com pão, dando risada, descalça, futucando lixo nas calçadas... Deve ser por isso o "espírito de pobre", coisa que eu tenho tanto orgulho... Ruim é ter espírito de porco!

terça-feira, 9 de agosto de 2016

Alinhavando desperdícios...

Numa referência a Manoel de Barros, que usava as palavras para compor seus silêncios, e era, por elas,  iluminado, essa coleção alinhava desperdícios, metamorfoseia coisas, alquimiza um tanto... (Porque os alquimistas estão chegando, não para transformar metais, mas para transmutar conceitos e mentes, renovar o homem usando borboletas...) Lança mão da invencionática, Não tem regras, nem pudores, nem limites... Mas coração e asas! Respeita às coisas desimportantes, saboreia quintais maiores que o mundo, e está aparelhada para amar passarinhos... Às vezes poética, às vezes estranheza. É assim essa coleção! Em tempos sombrios, pinceladas de cores, surpresas, invencionices... E o avesso vira direito, e vice versa, e o que era defeito é um efeito. Passado é presente, futuro é presente. O tempo se relativiza aqui. "E nada se cria, nada se perde, tudo se transforma", como dizia outro alquimista, o Lavoisier.